Jornalismo na Rede

Blog pessoal do jornalista Rodrigo Alves

Quarta-feira, Março 09, 2005

50 anos de vocação pelo rádio piracicabano

O jornalista Jamil Netto começou a carreira de jornalista em 1952, há mais de 50 anos; em Piracicaba, foi um dos fundadores da Educativa FM, então FM Municipal

Rodrigo Alves
rasilvad@walla.com

Estar ao lado de Jamil Netto é o mesmo que ter uma aula sobre o radiojornalismo piracicabano. Com a voz da experiência de seus mais de 50 anos no rádio, o jornalista, de 72 anos, esteve à frente, entre 1987 e 1989, do Serviço de Tecnologias Educacionais, a então Piracicaba FM Municipal, hoje Rádio Educativa FM.

Na gestão do ex-prefeito Adílson Maluf, atuou como diretor da emissora. Acompanhou toda a sua criação, em 1987, quando foi solicitada uma portaria ministerial e ainda a primeira transmissão oficial, em 7 de março de 1988, até a instalação no Prédio do Semae, dois meses depois. Natural de Porto Feliz e casado como uma piracicabana, Jamil deixou a Rádio Aparecida para atuar na terra natal da esposa. Começou a jornada na Rádio Cacique, em Caçapava, motivado pelo esporte.

É do tipo que se emociona ao falar do rádio, principalmente dos dois anos em que esteve à frente da Educativa (de 1987 a 1989). Depois disso, aposentou a voz dessa emissora à contragosto. Diz que foi trapaceado. Mesmo distante da emissora que recebeu nova diretoria ontem, Jamil não consegue esconder sua grande paixão por uma filha que ajudou a criar.

No decorrer dessa semana, ligou o rádio todos os dias na estação 105,9, atento para ver se a nova diretoria seria anunciada. Quando concedeu essa entrevista à Tribuna, o nome do amigo Miromar Rosa e da jornalista Nilma de Oliveira ainda não havia sido revelado por Barjas Negri. Por um período de uma hora e meia, enquanto falava das recordações, os olhos azuis se enchiam d´água. Eram as boas e más recordações que vinham à tona naquele momento.

A entrevista abaixo é um verdadeiro manual do que fazer ou não numa emissora pública que carece de um perfil e, devido às inconstantes nomeações, não encontra uma identidade.

Para a nova diretora, mesmo sem saber quem seria nomeado, Jamil dá a dica: “o dínamo é o oxigênio que funciona dentro do rádio”. Se as longas frases da voz da sabedoria devem ser adotadas ou não, cabe aqui o registro de uma memória que, no rádio, só não celebrou missa.

Existe autonomia jornalística devido ao fato da Educativa FM estar vinculada à Prefeitura, em especial à Secretaria de Educação?
Não totalmente. Até eu fiz uma critica recentemente e disse que ela está muito chapa branca. Eu acho que se a rádio é um veículo de comunicação de massa, ela deve sempre ouvir os dois lados. Qualquer jornalista de bom senso e ético tem que ouvir os dois lados. Já faz um pré-julgamento, já condena, já vai para a guilhotina, mas tem que ouvir os dois lados. E a Educativa ultimamente passou a ser chapa branca. Eu falei lá dentro, quando fui dar uma entrevista pelo aniversário da rádio. É uma pena. O ouvinte tem gosto para tudo. Ontem (quarta, 19) eu ouvi a rádio à tarde. Sábado tomou posse em Itu, um coronel aqui de Piracicaba, o Edson Del Rico. A rádio não deu uma notinha. O assunto interessa a comunidade em parte. Nem tudo interessa à comunidade na totalidade. Tudo tem limite. O rádio tem que ser informativo e ao mesmo tempo formativo. Se você não tiver opinião, não tiver um editorial, acaba perdendo a credibilidade. Tem que ter opinião formada.

É possível construir uma identidade numa emissora onde o que manda são os quatro anos de gestão política e as nomeações variam nesse período?
O problema está no cargo de direção da Rádio. Ele não foi criado para concursado. É um cargo de confiança. Até não gosto de usar essa palavra, confiança, porque dá a impressão que só se tem confiança naquele e nos demais se tem desconfiança. É o antônimo. Você tem competência, mas não tem o carimbo do partido na testa. Porque se o partido fosse bom não era partido, era inteiro. Então o que acontece, a cada quatro anos muda tudo e a Rádio passa a não ter uma filosofia, um corpo, um perfil completo. Aí sai fulano da prefeitura, gera aquela expectativa. Igual agora. Tá sem direção a Rádio. Não sei o porque. Não sei, não posso dizer, não tenho o dom de adivinhar. Isso prejudica até quem está trabalhando concursado lá dentro. O jornalista não sabe quem está dirigindo, pois quem está dirigindo está interinamente, não tem tanta liberdade para agir, não tem forças, não tem como resolver problemas. É muito difícil o carro engrenar dessa forma. Já que é para fazer uma crítica, eu vou fazer.

Aponte uma falha que presenciou do lado de fora, como ouvinte?
É lamentável o que aconteceu no dia primeiro de janeiro. A Rádio não transmitiu a posse, isso foi um verdadeiro absurdo do ponto de vista de estrutura. Não precisava ter jornalista de plantão. Era só ter um operador de mesa. Transição de governo, quem faz a programação da posse, é quem está lá ainda. O Machado era o responsável. A pessoa que vai deixar o comando é a que prepara tudo no dia seguinte para quem vai tomar posse. Eu não engulo nem seco e nem com água. O prefeito, enquanto estiver no cargo, é o dono da Rádio. Não é o proprietário propriamente dito, mas é o dono oficialmente.

Como foi a história de sua nomeação como diretor da então FM Municipal?
Eu estava na Prefeitura, como assessor de imprensa do Adílson Maluf. Fazia esporte na Difusora, só basquete. Aí quando surgiu a rádio eu fui nomeado como diretor presidente. Montei a equipe funcional. Acompanhei todas as instalações, desde a construção das torres, que possui uma estrutura fantástica. Essa só um tsunami destrói, fora isso nada derruba. Ficamos lá no Semae, depois mudaram para a Marechal Deodoro e está lá até hoje, muito bem instalado por sinal. Não vou tirar o mérito dela estar lá e de quem a instalou.

Quais as dificuldades de criação da então FM Municipal?
Eu assumi a Rádio na gestão Adilson Maluf, como um dos co-fundadores. Sofri repressão das emissoras locais. Mas eu dizia que não ia fazer concorrência comercial e sim na programação. Eu dizia que queria fazer uma programação diversificada, tanto que criei alguns sonoros que até hoje existem. Há o programa Cardápio, que mudou de nome, mas que valoriza as músicas de orquestra, etc e tal.

Quando e porque o senhor saiu da Educativa FM?
Eu saí da rádio em 1989, naquela época a posse era em fevereiro. Eu não abri a boca em espécie alguma. Eu fui injustiçado pelo governo do PT, na primeira gestão de José Machado, por um funcionário que era comissionado (Xilmar Ulisses) e que chegou no fim do governo do Adílson Maluf.

Como foi essa história?
É como a história da serpente e do vaga-lume. Eu fui exonerado sem justa causa. Eu fui perseguido politicamente sem motivos, mas isso não iria acontecer se eu não tivesse capacidade. Esse cidadão (ele continua se referindo a Xilmar Ulisses) me mandou duas cartas anônimas pesadíssimas que nem meus filhos viram até hoje. Eu tenho certeza de quem é, porque no final estava escrito “PT – FM Municipal”. Na carta estava escrito que eu jamais voltaria à radio. Eu xeroquei as duas cartas e mandei para ele. Nunca mais eu recebi uma carta anônima.

Como foi a sua reação a uma atitude como essa?
Nesse período todo de turbulência eu acumulei problemas emocionais e de saúde. Tudo pela atitude que tomaram, porque eu poderia ser ouvido. Não é certo chegar assim abruptamente, exonerar a pessoa, sem mais nem menos. Isso machuca a sensibilidade do ser humano. Eu jamais na minha vida, em todos os lugares que passei, na Difusora, na Rádio Aparecida potência nacional, Alvorada, Educadora, departamento de esportes e jornalismo, eu nunca prejudiquei um funcionário. Era o primeiro a defender um funcionário. Eu punha a cara para bater, era o pára-choque. E esse problema da Educativa foi por ciúmes. Mas fazer o que, né. Eu sofri muito e sofro até hoje. A minha grande paixão é o rádio.

De 1989 até os dias de hoje, nunca mais voltou para a Educativa?
Depois o Thame assumiu, o Machado assumiu. Aí voltou o Umberto. Veio o PT de novo. Água e óleo não se misturam. Agora chegou o Barjas e nada feito. Eu não sei dizer o porque eu ainda sou um bom vivant, mas é sem querer, né. Eu ainda tenho muito, até quando Deus me permitir, para fazer pelo jornalismo.

A forma como saiu de uma emissora pública como a Educativa não gerou comentários e repercussões?
Um certo dia encontrei com no Banespa um funcionário da Educativa e ele falou: “você devia estar lá”. Mas eu falei que não fui convidado. Aí essa pessoa disse que eu era muito polêmico. Respondi que era polêmico, mas não significava que não tivesse capacidade. Eu não sou rapa-pés. Eu sou o que sou, o que posso fazer? Quem quiser aceitar que aceite. Não sou melhor do que ninguém, nem pior. Mas eu dei a vida pela rádio, sofri pela rádio. A maioria dos funcionários de lá me quer bem. É só chegar lá e perguntar para quem está lá. Chega lá e o pessoal vai falar que eu era turrão, que eu era exigente, mas era coração mole.

Mas o jornalismo continuou no sangue?
Nesse período que eu sai, eu passei a transmitir só basquete na Alvorada. Depois eu fiz jornalismo e esportes na Educadora até 1996. Depois das eleições nesse ano eu parei. Eu fiquei dois anos parado por problemas psicológicos e saúde. Dois anos depois fui chefe de cerimonial da Prefeitura de São Pedro, que é uma coisa que eu gosto de fazer. Agora estou aposentado e não aposentado.

O senhor assumiu uma rádio sem formato nenhum. Como foi construir uma programação para a FM Municipal? Havia a preocupação em atingir um público em específico?
A Educativa atingia até a classe C, inclusive. Tinha um sertanejo das 6 às 8 horas da manhã. É um modelo de quase todas as emissoras do Brasil. É o ritmo mais executado no país. A FM Municipal tinha o sertanejo e era bem diversificada. Isso foi pensado, por motivos óbvios, porque há gosto para tudo: musica nacional, internacional, erudita ou clássica, forro, o breganejo. Há ouvinte para isso, tem que investir. O rádio tem que ser abrangente.

Do tempo em que viveu no rádio, pela experiência que acumulou, acredita que no Brasil existe uma fórmula para o rádio?
O rádio só se faz é por vocação. Você pode dizer que faz por imediatismo, lazer, porque gosta. Lazer é em clube social. Eu sempre tive vocação. Outro dia recebi uma visita de um ex-radialista. Ele disse: “Jamil, eu admiro você com essa idade e tanta disposição, tanto fôlego, tanto oxigênio”. Eu falei: “meu caro, tem que ter, ou então não funciona”. Para mim não há jornalismo sem vocação.

No rádio, qual a diferença no modo de fazer jornalismo da sua época e o de hoje?
Na época em que eu era o responsável pela Educativa, era mais aberto e mais diversificado. Havia uma abrangência maior. Hoje a coisa está muito limitada. Tudo tem um limite na vida, ninguém tem carta branca. Quem disser que o prefeito deu carta branca é conversa mole para boi dormir. O jornalismo ficou bitolado. Bitolado, esse é o termo mais exato. É claro que há muitas noticias nacionais e internacionais que interessam a nós, nem todos lêem jornais e como o rádio é um veículo de massa, o analfabeto ouve e entende. Ele ouviu o rádio e acabou. Por isso é preciso fazer um jornal abrangente, mas com o foco na cidade. E uma cidade do tamanho de Piracicaba tem muita coisa, tem muita informação. Tem que procurar a notícia, não é só plantar ela. Se vai atrás consegue. Todos os governos que passam deixam problemas. A Rádio tem que mudar seu estilo de jornalismo, sua característica. É claro que o prefeito não vai gostar, o secretário não vai gostar, mas é construtivo, tem que ouvir os dois lados.

Publicada em 20 de janeiro de 2005, na Tribuna Piracicabana

1 Comments:

At 2:19 PM, Blogger Fabiana said...

Ola Rodrigo, gostei muito da entrevista. Gostaria de saber se o senhor Jamil tem algum email de contato.
Atenciosamente,

Fabiana Barbosa

email: fabisbarbosa@hotmail.com

 

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