Jornalismo na Rede

Blog pessoal do jornalista Rodrigo Alves

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

Jaguatirica: o Oscar com sotaque caipira

Mostra dos alunos de Rádio e TV da Unimep foi realizada na última quarta-feira; organizadores apostam na itinerância do evento

Rodrigo Alves
rasilvad@walla.com

Com o Teatro Unimep lotado, a 5ª Mostra Jaguatirica trouxe os trabalhos experimentais dos alunos de Rádio e TV da universidade, na última terça-feira, às 20 horas. A apresentação foi do ator Eduardo Silva (o Bongô, do Castelo Rá-Tim-Bum), que anunciou os prêmios destaques (confira Box). A madruga produções foi a equipe que mais recebeu premiação no evento: sete troféus. O grupo exibiu um vídeo sobre uma lenda no Rio Piracicaba e um programa de rádio adaptado do texto de Moacir Scliar.

Na tentativa de inovar, a edição 2004 da mostra disponibilizou quatro micro-computadores para votação do Júri Popular, mas duas máquinas apresentaram problemas e, ao final, foi revelado apenas o escolhido na área de rádio. O prêmio foi para o rádio-ficção “Histórias que o povo conta”, do grupo Pedra na Lata, com 63 votos. Na categoria vídeo, a Madruga Produções recebeu 82 votos pela ficção Água Doce. No total, entre vídeo e rádio, 233 pessoas votaram. O resultado da votação do melhor vídeo foi apurado pelo Departamento de Tecnologia e Informática (DTI) da Unimep, na tarde de quinta-feira.

Os trabalhos produzidos ao longo do ano estarão disponíveis a partir de 2005 na Hemeroteca do Laboratório de Comunicação da Unimep. Este ano, a aposta foi também na itinerância da mostra. Ontem, um dia depois da exibição em Piracicaba, a Jaguatirica foi apresentada no Museu de Arte Contemporânea, no Cineclube Estação. Alguns grupos participaram de um debate com os participantes. Para os próximos meses, a Faculdade de Comunicação deve levar o evento para São Carlos, Sorocaba, Rio Claro e outras cidades da região. As produções em rádio serão transmitidas ainda, em data a ser definida, na Rádio Educativa FM (105,9).


Inovações e variedades marcam apresentações

Da ficção à comédia, da música à metalinguagem, produções trazem alternativas para Rádio e TV

A inovação começou com a apresentação do rádio-documentário “Grandes parcerias”, com destaque para a união musical entre o mito Raul Seixas e o roqueiro baiano Marcelo Nova. No vídeo, os integrantes da Carimbo Produções seguiram a linha da metalinguagem, exibindo “De quem é o show”, onde a ênfase foi dada ao trabalhos dos técnicos de palco do show do próprio Marcelo Nova. Mesmo com sotaque do interior, o grupo encarou o desafio de produzir e narrar os dois documentários.

A Madruga Produções, não necessariamente a segunda produtora a exibir os trabalhos, trouxe à 5ª Jaguatirica o rádio-ficção “Contos Brasileiros”, uma adaptação do conto As Ursas, de Moacir Scliar. Discutindo a relação entre mitos e religião, o grupo fez uma análise da sociedade contemporânea.

O cuidado com a produção do vídeo-ficção “Água Doce” foi tanto que os dez integrantes do maior grupo da Jaguatirica produziram até um cartaz (veja foto) sobre a estréia da produção na mostra. O material foi espalhado por todas as faculdades e corredores da Unimep. A atuação de Washinton Poppi, o Ulisses, é digna de um profissional. Ele interpretou um entregador de água que se apaixonou por uma garota misteriosa que ronda a beira do Rio Piracicaba. A lenda urbana concebida pelos alunos mostrou que é possível retratar o Rio Piracicaba sem cair na mesmice de abordar suas histórias pelos mesmos personagens e temas.

A fórmula do rádio “Etereofonia”, da produtora Pós de Arroz, foi o registro do cotidiano das pessoas por meio de uma não-linearidade. A equipe de trabalho esteve presente em espaços tradicionais representativos de Piracicaba e ainda incluiu ambientes sonoros que fizeram parte do mundo. A produção foi das alunas Camila Tavares, Nicole Spanghero e Fernanda de Oliveira, que, num programa de rádio fora dos padrões convencionais, captaram o espírito sonoro da Rua do Porto, por meio da culinária, diga-se, o peixe. Na produção, houve ainda espaço para verdadeiras personalidades anônimas do centro, inclusive da Praça José Bonifácio.

Na sessão do vídeo-documentário “Falar com as letras” ficou visível o poder da equipe feminina Pó de Arroz em captar o universo dos alunos adultos do programa Brasil Alfabetizado, no bairro Kobayat Líbano. Após a apresentação, “as estudantes de RTV” se encontraram com “os estudantes do Brasil Alfabetizado”. Pausa para uma foto e, é claro, uma ressalta da recém-formada Camila Tavares: “eles só vieram devido ao apoio da Secretaria Municipal de Educação”.

Críticas bem humoradas num programa de rádio são formulas constante nas produções ao longo da universidade, período destinado às reflexões sobre o “mundo lá fora” e seus problemas. Foi nesse estilo que a Choc Produções exibiu “Curta Cult”, programa de rádio sobre a vida de um homem que de tanto trabalhar na mesma empresa há vários anos, acabou virando um arquivo.

Em tom nostálgico, o rádio “Estado de Prosa” deu voz a um casal de idosos que contou a história de como se conheceu e se apaixonou. A temática foi a aposta da G1 Produções, que definiu o programa como um projeto piloto voltado para as emissoras de rádio AM. Uma das únicas produções com um “gancho jornalístico”, o programa apontou os problemas da população acima dos 63 anos, “teoricamente” protegida por lei pelo Estatuto do Idoso. Mas faltou uma pitada de orientação de jornalismo.

O investimento num público centrado nas faixas etárias parece ter sido mesmo a principal abordagem de Danilo Modolo, Antônio Diego e Rogério Farias, da G1. Em vídeo, o grupo encarou o asfalto e foi até a capital paulista para ouvir ícones como Marcelo Tas, Soninha Francine, além de produtores da MTV. Pensa que ficou na tietagem? Que nada! Em tom bem humorado, o grupo pegou a visão dos “manos” da periferia, que criticam a programação da MTV e a taxam como “preconceituosa e excludente”. A produção captou ainda o universo jovem que assiste religiosamente Malhação, da Rede Globo.

Soninha Francine, a Soninha, ex-apresentadora do programa "RG” (TV Cultura), em entrevista ao vídeo “Sabor Jovem”, fez sérias críticas ao comportamento dos jovens em relação à televisão e disse que são eles os principais públicos das novelas. Já o apresentador Marcelo Tas, do programa Vitrine (TV Cultura) falou não somente da atitude jovem, mas do papel do profissional dos meios de comunicação. Para ele, é preciso assistir de tudo, até os programas taxados como “ruins”. Depois disso, Tas aconselha: “Dá até para aproveitar alguma coisa”.

Entre ficção, público jovem e idoso, a On Line Produções decidiu exibir o rádio “Mídia nossa de cada dia”, que tratou com humor as formas como a mídia aborda temas como saúde e beleza. O metalinguagem vídeo “Trilha Sonora, Renato Lemos”, que expôs a essência da televisão, do rádio, do cinema e do documentário, narrando o processo de construção de uma trilha sonora para essas mídias, de diferentes linguagens. Essa fórmula pode não interessar ao grande público, mas fortalece o acervo da universidade com especialistas de RTV discutindo, o que às vezes, não é abordado pelos professores em sala de aula.

Parte dos alunos aproveitou a boa atuação de alguns atores amadores que do teatro piracicabano. No curta-metragem “A morte e o imperador”, também da Choc, o ator amador Anselmo Figueiredo dividiu a cena com o “global” Roger Gobeth, no curta “Udi Grud”, com a história de dois jovens que possuem vidas diferentes, mas que têm um sonho fictício e um passado real em comum.


Para Eduardo Silva “é preciso ganhar espaço”

Apresentador da mostra diz que cabe ao produtor do interior captar e levar sua cultura a diversos locais

O ator Eduardo Silva deixou claro que as produções quase não davam margem para análise dos aspectos negativos. Ele fez questão de ressaltar: “A falta de tempo e distância são o que atrapalham as produções no interior”. Sobre a forma que analisou os trabalhos, ele declarou: “Aqui, mais de perto, vendo pela primeira vez, dá para diagnosticar os imprevistos, a forma como cada grupo colocou a mão na massa e notar se o resultado final pode ser cunhado lá fora (no mercado de trabalho) ou não”. Na área de artes cênicas, além de longa-metragens, filmes publicitários e espetáculos teatrais, Eduardo participou das novelas A História de Ana Raio e Zé Trovão e Éramos Seis. Na TV, fez o personagem Bongô, do Castelo Rá-Tim-Bum (TV Cultura). Ainda como ator, ele já conquistou os prêmios Mambembe, Shell e Molière.

“É fundamental que todos percebam que São Paulo e Rio de Janeiro são muito grandes, mas também podem ser explorados, assim como o mercado internacional deve ser incluído. Quando eu penso no aspecto regional, o que me vem em mente é que somente o pessoal do interior pode valorizar o que está ao seu alcance e que tem a capacidade de mostrar esse valor lá fora”.Eduardo enfatizou que no mercado de trabalho quase não há abertura para os que “estão chegando”, mas que “tem muita gente boa para tentar ganhar espaço. O importante é isso”.

A coordenadora do curso de Rádio e Televisão da Unimep, Maria Thereza de Azevedo, a Marithê, apostou no discurso de que o curso de Rádio e TV ano-a-ano coloca no mercado profissionais capacitados. A declaração foi dada na área externa do Teatro Unimep, entre um bate-papo com o ator Eduardo Silva e a reportagem da Tribuna. Entre um assunto e hoje, ela informou que assumiu a coordenação do curso em 2003, e só acompanhava o trabalho da turma como professora de algumas disciplinas de vídeo e televisão. Antes, tanto a direção do curso de RTV, como das outras faculdades (Jornalismo e Publicidade), era do professor Fernando Ferreira, o Fefeu, responsável pela criação do curso em 1994.

Os orientadores dos projetos experimentais da Jaguatirica 2004 foram os professores Luciene Beleboni, Mirian Rother, Maria Ângela Pavan, Maurícius Farina e Marithê.

Reportagem publicada na edição de sábado, 11 de dezembro de 2005, na Tribuna Piracicabana